SEU PECADO JAMAIS SERÁ PERDOADO*

Você tem certeza que são cascos de cavalo, mesmo que não faça o menor sentido ouvir cascos de cavalo no centro de São Paulo, ainda mais a essa hora da madrugada, então você tem certeza de que não é cavalo, você está enganada, só pode estar enganada, deve ser outra coisa, não faz sentido, o que será?, por que a persegue?, foi tão grave assim? Não seja inocente, não existe inocência no centro velho de São Paulo, muito menos a essa hora da madrugada; é claro que lhe persegue. Você apressa o passo, olha para os lados e não vê nada, não vê um único mendigo enrolado em seu cobertor de feltro, o que é muito estranho, a essa hora da madrugada?, não faz sentido, não faz, aonde foram todos? Você apressa o passo, olha para trás e não vê cavalo algum, como é possível?, não vê cavalaria da polícia, não vê carrocinha de papelão, claro que não, não há uma só alma na rua além da sua, você não vê nada mas ouve o barulho e sente o calor subir pelo corpo inteiro, você ouve o barulho de cascos de cavalo pisando forte as pedras portuguesas cinza e brancas, sujas, muito sujas e irregulares, você tropeça nessas pedras, perde o equilíbrio por um instante, desce a ladeira da São João aos trancos e barrancos, quase indo ao chão bem debaixo do Martinelli, foi por pouco, você xinga e retoma a passada, que merda!, ainda bem que ninguém viu, ninguém riu nem se propôs a ajudar, ainda bem!, ainda bem?, calma, tudo bem, está tudo bem sim, é meio estranho, só isso, é a hora, por algum motivo muito estranho o centro de São Paulo está deserto, por quê?, nem faz tanto frio nesta madrugada!, o que acontece?, faz calor, isso sim, vejam vocês, faz calor! É calor que você sente agora, enquanto anda como se corresse, enquanto corre como se andasse, tentando se afastar do trote que vem em seu encalço, ao menos é isso que parece acontecer, deve ser outra coisa, não é possível!, um cavalo?, não é possível, não faz sentido!, você olha e não o vê, você ouve, sim, você ouve os cascos de cavalo, então apressa o passo sem passar por desesperada, não custa nada manter a linha, mesmo a essa hora da madrugada, não quer passar vergonha, não quer chamar atenção. Talvez fosse bom chamar atenção. Ai, meu Jesus, minha santinha, onde estão os bêbados, os craqueiros, os evangélicos, as putas, aqueles carinhas que distribuem sopa? Você nunca pensaria nisso, mas agora pensa, minha Nossa Senhora, sim, agora você adoraria atravessar uma rua com mendigos e cachorros, moleques e cantores de videokê, ambulantes e traficantes, de tudo um pouco, sim, isso mesmo, você sabe que não existe inocência aqui, até bandidos você preferiria encontrar, qualquer coisa seria menos estranha do que a madrugada deserta durante a semana no centro de São Paulo com esses cascos de cavalo que soam cada vez mais alto, cada vez mais perto, ressoam nos prédios velhos e acordam seus fantasmas, há muitos fantasmas nesses prédios velhos, que Deus os tenha, você bem sabe, e o calor, esse calor também aumenta, falta o fôlego, você apressa o passo e pensa no que deixou para trás, uma coisa muito estranha para acontecer, que diabos foi aquilo?, uma coisa horrível, sem dúvida, mesmo para uma madrugada durante a semana. Uma cerveja, duas, uma caipirinha, duas, uma dose de um troço doce, gostosinho até, um boteco, dois, entre a praça da Sé e o mosteiro São Bento, aqui no centro velho da cidade, lugar movimentado onde acontece de tudo, onde tudo pode acontecer e tudo bem, ninguém liga, aqui pode, faz parte da cultura local, a gente sai do serviço e bebe até esquecer quem é e onde está. Esquecer os noivinhos pobretas que vêm comprar alianças na Barão de Paranapiacaba e querem parcelar em vinte e quatro vezes sem juros, muito mais tempo do que vai durar a merda dos seus casamentos; esquecer as dondocas de antigamente que ainda entram na mesma loja de antigamente e mal olham na sua cara, pedem para olhar brincos e colares e pulseiras e broches e anéis de pérola, querem torrar a pensão do finado marido, que Deus o tenha, pobrezinho, e escondem tudo no sutiã ao voltarem às ruas porque morrem de medo de assalto, e deixam você ali, ralando por comissão, segurando a vontade de lhes descer a porrada e gritar, anda!, escolhe logo a porra do brinco!, acha que eu tenho o dia inteiro?, puta que pariu, sim, claro, facilitamos o pagamento, ficou lindo na senhora, parabéns pela escolha, é a última peça, design exclusivo, em promoção, sim, oportunidade única, sabe a Hebe Camargo?, comprava tudo com a gente, coitadinha, que Deus a tenha, vinha de vez em quando, encomendava muita coisa por catálogo, você sabe, era muito vaidosa, adorava a nossa loja desde a época em que trabalhava na tevê Tupi; sim, claro, avaliamos as suas joias, seus netos vão trazer aqui para fazer grana de balada, alguns dizem que é para ajudar na formatura, dizem que você faleceu, vovó, eles dizem sim, e surrupiam suas joias para comprar droga a peso de ouro, quer saber?, foda-se, eu pago mesmo, pego suas joias, dou a grana, não quero nem saber de história, derreto, faço outra peça, vendo de volta para uma dondoca como a senhora, ninguém mandou perguntar. É por isso que prefiro os clientes que nada dizem, os tiozões que simplesmente entram, escolhem a primeira correntinha do mostruário, mandam embrulhar para presente e vão embora, não ficam justificando que é para a filha mas é para a amante, é para a esposa mas na verdade é para a secretária gostosinha que quer subir na carreira com dois pulos, é para o diabo a quatro, que seja, pagando bem tá valendo. Todo esse ouro e você usando bijuteria da Vinte e Cinco porque o movimento não anda lá essas coisas, o salário de balconista não é lá essas coisas, você baixa as portas às dezessete horas, não foi assaltada hoje, está no lucro, embora quem esteja no lucro seja o patrão, o chinês, como é mesmo o nome dele?, você ainda não aprendeu, tudo bem, não tem problema, ele é dono de tudo e mais um pouco, não está nem aí, não conhece a Hebe nem ouviu falar na tevê Tupi, e tudo bem mesmo, ele nunca aparece, paga direitinho, melhor assim, hora de beber uma cerveja ou duas no boteco, deixar o metrô esvaziar, você mora na casa do caralho, já basta de aperto na vida, que lhe perdoem a sinceridade, vamos ficando, vamos ficando, o lugar é divertido, clima meio carregado de baixo centro, mas e daí?, é isso mesmo, a cerveja não custa caro, é bom extravasar de vez em quando durante a semana, ficar de fogo, perder a cabeça, cair de vez na noite da cidade e se sentir viva para variar um pouco, dançar um forró ou dois, não tem ninguém esperando em casa, nem gato vira-lata nem cachorro sarnento, curtir um pouco de boteco faz bem, sim, curtir um pouco já está de bom tamanho. Você olha de novo para ter certeza e não vê nada, é possível uma coisa dessas?, nada na esquerda, nada na direita, não vem da esquerda nem da direita, não dá para ter certeza, o barulho dos cascos de cavalo vem por todos os lados, meu santo Expedito, ajuda aqui, o barulho ecoa nos corredores de prédios, nas ruas estreitas de pedras portuguesas, nas sombras projetadas pela iluminação cansada, o barulho está seguindo você em seu trajeto de fuga, não há nada atrás mas você ouve os cascos de cavalo e apressa o passo, você tem certeza de que são cascos de cavalo, mesmo que não faça o menor sentido, então você não tem tanta certeza assim, o que será?, deve ser outra coisa, você está enganada, só pode estar, não deve ser nada de mais, um cavalinho à toa, que mal tem nisso?, não tem mal nenhum, é só o barulho que se estende pelas sombras compridas, pela iluminação cansada, pelas pichações das paredes, o barulho está seguindo você em seu trajeto de fuga, não há nada atrás mas você ouve os cascos de cavalo e apressa o passo, ele antecipa o caminho, só pode ser, ele antecipa o caminho!, deve ser assombração, não deveria ser tão difícil despistar o bicho neste labirinto urbano. Você chega ao vale do Anhangabaú, o metrô já fechou mas ainda é possível pegar algum ônibus no Terminal Bandeira, você tem quase certeza de que uma linha funciona de madrugada e passa perto da sua casa, só precisa chegar lá, não falta tanto assim, vamos, apresse esse passo! Você chega ao vale do Anhangabaú com os calores subindo pelo corpo na madrugada fria mas não tão fria assim, já houve piores, até que faz calor, é o sangue correndo à sua frente e os cascos correndo atrás, você perdendo para ambos, é um calor que torna tudo mais claro, percebe?, sim, você olha ao redor e vê a iluminação, é um facho de luz, uma tocha, não sabe por que mas pensa numa tocha que clareia os arredores. Na escadaria você não vê os mendigos mas sente cheiro de mijo, sente cheiro de medo sem saber onde estão todos, não é questão de ver ou não, não se trata de acreditar ou não, acontece simplesmente que é. Onde você estava com a cabeça?, que coisa horrível!, me perdoa, paizinho, me perdoa, eu não tinha como saber, o sujeito chegou, ficou ali por perto, lançou aqueles olhares, pediu uma cerveja ou duas para lhe acompanhar, com sua licença, bem educado, bom de papo, bom de copo, uma ou duas caipirinhas, aceito, sim, claro, um sujeito bonitinho, vá!, Mateus?, Marcos?, Lucas?, não importa, era bonitinho, bem vestido num casaco preto novinho, bom de papo e bom de copo, puxou uma dança, depois outra, sabia fazer um forró dos bons, você pediu mais uma ou duas e ele disse que sim, disse que pagava, contanto que você ficasse mais, que não fosse embora tão cedo, um sujeito gentil, veja só que raridade, um cavalheiro de verdade, há quanto tempo você não deparava com um desses? Os últimos que recebeu na cama metiam-lhe o pau, depois metiam-lhe a mão, chamavam de putinha, até roubar chegaram, os covardes, roubaram o terço banhado a ouro que sua mãe benzeu em Aparecida, na missa do cardeal, os miseráveis desgraçados filhos da puta. Já fazia tempo, sem dúvida, fazia tempo que você não encontrava um sujeito bom como este, fazia tempo que sequer procurava, pensava que eram todos iguais mas não, este é diferente, veja só, melhor ficar uma horinha a mais para ver no que dá, quem sabe?, talvez duas horinhas, é bom extravasar de vez em quando durante a semana, aproveitar o bom da vida, que é pouco mas é o que lhe cabe, aquela bondade toda, veja só que sorte a sua, depois de um dia merda de trabalho, aquela gentileza toda, o papo bom, o beijo bom, os amassos meio ousados, você não acha?, espera aí, melhor não exagerar no boteco, o povo aqui me conhece, pega mal, vamos dar uma volta, as ruas estão aí para isso, ninguém vai se importar, estão todos acostumados neste centro sujo, velho e largado, tudo pode acontecer aqui e acontece, já vi de tudo e nem é questão de ver ou não, já ouvi de tudo e nem é questão de acreditar ou não, simplesmente acontece e tudo bem, vamos lá, que mal tem?, nenhum, nenhum mal, assim a gente se conhece melhor, aqui perto tem um escurinho bom, noite tranquila, é bom demais, o sujeito é bom de papo, bom de copo e bom de beijo, bom de tudo, leva jeito pra coisa, logo ali entre a praça da Sé e o mosteiro São Bento, o miolinho sagrado da cidade, no meio da rua?, que mal tem?, não existe inocência aqui não. Mal nenhum, não tem mal nenhum, imagine! Sobe um calor maior ainda ao lembrar, como isso foi acontecer?, você aperta o passo, cruza o Anhangabaú, não falta muito, lá está a bandeira da praça, falta pouco para alcançar o ônibus no terminal, deve haver algum ônibus mesmo a essa hora da madrugada, você tem quase certeza, os cascos de cavalo incansáveis vêm atrás, que maldição, logo hoje que o dia nem foi tão ruim assim, logo hoje, no meio da semana, numa noite que começou tão bem, que inferno agora, o que você fez para merecer?, onde estava com a cabeça?, como pôde ser tão inocente?, você deveria saber, mais do que ninguém você deveria ter desconfiado, não existe inocência na madrugada do centro velho de São Paulo, no interior do pecado, entre putas e mendigos, entre a máfia chinesa e as rondas da PM, entre os seguranças de boate suados em seus ternos pretos compridos demais, não mesmo, nenhuma inocência habita estas ruas assombradas de pedras portuguesas sujas, cheias de falhas e remendos mal feitos, você tropeça e xinga mais uma vez, está quase no Largo da Memória, olha para os lados e aperta o passo, tudo vazio ali também, como pode?, tudo muito estranho, aonde foram todos?, restam somente esses cascos de cavalo na sua cola, logo atrás, logo ali tão perto, ressoando no vale e despertando maldições, será possível que ninguém ouve?, ninguém está nem aí?, ninguém se importa?, a culpa é toda sua, não adianta passar a responsabilidade adiante, arque com as consequências, sua mãe já dizia, assuma o seu pecado, foi você quem perdeu o juízo, só você pode fazer algo, então você aperta o passo e choraminga, você já não anda como se corresse, você corre como se voasse, está tão perto do ônibus, falta tão pouco!, você choraminga que foram apenas uns apertões inocentes, você não tinha como saber, foram apenas umas pegadas boas porque o sujeito era bom mesmo, levava jeito pra coisa, uns amassos no meio da rua onde ninguém quer ser inocente e nem pode ser inocente se quiser sobreviver, que mal tem isso?, não tem nada de mais, minha linda, não faz mal algum, você solta os cabelos, o desejo percorre a espinha de baixo a alto, sente o cheiro do sujeito, seu perfume de alecrim um tanto apimentado, sobe um calor danado e você desabotoa a blusa para deixar entrar a madrugada fria, de olhos fechados você procura com as mãos e lá está o bom sujeito de prontidão, não há mal nenhum, só um pouquinho, vem comigo, ninguém vai perceber nada, ninguém dá a mínima, mas você sim, um pouquinho só, vai, mal não faz, vem comigo, é bom extravasar de vez em quando durante a semana, o sujeito tem muita vontade e sente calor também, tanto calor quanto você, ele sua e escorre, vamos, deixe a madrugada fria abraçá-lo também, você vai abrindo o casaco preto novinho dele, que cheira a incenso de alecrim, você abaixa o zíper e vê, santo Deus, é bem nessa hora que você se dá conta de que não existe inocência alguma nas madrugadas frias do centro velho de São Paulo, não tem perdão, não pode brotar inocência nos malditos rejuntes mortos das pedras portuguesas, naquela sujeirada sem fim, você vê e se dá conta de que é verdade, não é questão de ver ou não ver, não se trata de acreditar ou não acreditar, acontece simplesmente que é um crucifixo prateado no pescoço do bom sujeito, bom demais para ser verdade, um crucifixo pendurado num pescoço meio escondido pela gola alta, preta, com aquela tirinha branca que os padres usam, a porra da tirinha branca que só os padres usam!, a culpa é toda sua, como deixou isso acontecer?, claro, só podia ser ali, no meio da rua, entre a catedral da Sé e o mosteiro São Bento, um inferno fantasiado de paraíso, você deveria saber que não haveria um sujeito bom num lugar como aquele, onde a inocência se prostitui, onde a inocência se acaba de fumar pedra, onde ela morre de aborto espontâneo. Um padre? Sério? Você fica louca da vida, meu Deus!, que merda é essa?, agora já é tarde, na mesma hora você decide que não quer mais, quer fugir dali, mas essa hora já é tarde demais, é madrugada alta durante a semana e as ruas do centro velho de São Paulo estão vazias, o metrô está fechado, maldição!, meu Santo Antônio, meu São Cristóvão, você cruza apressada o Pátio do Colégio, olha para trás e já não vê o sujeito, ele ficou, graças a Deus, ele ficou lá, você percorre a calçada dos bancos com o barulho dos cascos de cavalo ao pé do ouvido, o que é isso?, é coisa da sua cabeça, não é nada, você está enganada, você tem certeza de que são cascos de cavalo mas não faz o menor sentido ouvir cascos de cavalo então você tem certeza de que não é cavalo, é outra coisa, você está ouvindo fantasmas, você desce a São João e não vê ninguém, nem fantasmas nem mendigos nem cavalos, mas você ouve o galope nas pedras portuguesas, você cruza o vale do Anhangabaú sem encontrar ninguém, todos fugiram apavorados, a luz amarelada do fogo vibra com você, o calor sobe pelas ventas e afugenta até mesmo os mendigos que já viram de tudo, os bandidos, os moleques, os travestis, os PMs e os bêbados que já viram de tudo e não deveriam se assustar, eles sequer deveriam notar, eles que não duvidam de nada não deveriam ter medo mas têm, eles correm para longe quando você se aproxima bufando, quando você dobra a esquina chispando labaredas, como pôde ser tão inocente?, como pôde cometer um pecado desses?, ai, minha Nossa Senhora, me perdoa, eu sinto muito, vamos, diga, como você se deixou seduzir pela bondade do sujeito? Onde estava com a cabeça? Estúpida demais. Agora é tarde, você aperta o passo e o som do galope aumenta junto, é alta madrugada e mesmo assim todos fogem quando veem o fogo, fogem quando veem o seu fogo, todos fogem apavorados assim que ouvem o barulho dos seus cascos ecoando pelo centro de São Paulo, sim, os seus cascos de mula, despertando os velhos fantasmas da carochinha.

*O desafio era escrever um conto sobre lendas brasileiras, afastando-se das versões mais infantilizadas que costumam circular por aí. Adivinhou qual é?

Escritor, redator, revisor. Colunista do Correio Popular. Pesquisador de poéticas contemporâneas. Membro do coletivo literário Discórdia. www.artefazparte.com

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